POR SANTA MARTA DE PORTUZELO

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quinta-feira, 5 de maio de 2011

SALVANDO-SE DO ESQUECIMENTO .... CARLOS DE OLIVEIRA

Referência aos vultos literários e outros, da nossa terra e vizinhos, de aquém e além, merecedores de memória, que se imortalizaram pelo legado artístico e, assim, libertando-se da lei da morte, não caíram no vaso do esquecimento.
Servirá este espaço para apresentar excertos  sobre poetas, dramaturgos, romancistas, contistas, cronistas e de todos aqueles que de uma forma ou outra se dedicaram à arte da escrita, exarando sobre a visão do(s) mundo(s).

CARLOS ALBERTO SOUSA LOBO de OLIVEIRA (1896-1973)


Nasceu em Santa Marta de Portuzelo, irmão de D. Cacilda Sousa Lobo de Oliveira e cunhado do Professor Arão Rodrigues de Carvalho. A sua poesia tem um cunho fortemente simbolista e saudosista. A predilecção pela natureza e pelo Minho, sua terra natal, é uma constante, sem esquecer as preocupações metafísicas próprias de um pensador.
De entre outras, salientam-se as seguintes obras: “Alegre Melancolia”; “Meditação do Tempo”; “Silêncio Fechado”;  “Noite Espiritual”.

Do Lima me parti naquele tempo,
em saudade, na manhã em flor
se dilui e nos verdes campos sonha
o esquecer-se da mágoa que há-de vir...
Outros rios passaram, outras margens
ouviram o canto do rouxinol,
outros desenhos de águas se gravaram
na memória – tecido de mim mesmo...
Ó salgueirais do Lima de Bernardes,
Ó branda queixa de Feijó, tão longe,
onde nem a Primavera nem o Outono...
Mas o rio está perto e mais a luz
do seu corpo tão brando que se espraia
no meu sonhar-me...Para além de mim,
Rio de sonho, te levantas fluido,
voo de azul por sobre margens verdes...
Tristezas tão humanas e terrenas
Me apartaram de ti, de tuas águas...
Os risos e as saudades e os luares,
as noites e as manhãs, o céu em fogo,
com o fulgor de estrelas, tardes lentas
No silêncio parado do crepúsculo,
acre perfume das marés, o vento
Que vem cheio de murmúrias canções
- tudo fechei  em mim - e não partiram...


Por Santa Marta de Portuzelo

sábado, 12 de março de 2011

Salvando-se do Esquecimento .... P. António Vieira


Referência aos vultos literários e outros, da nossa terra e vizinhos, de aquém e além, merecedores de memória, que se imortalizaram pelo legado artístico e, assim,  libertando-se da lei da morte não caíram no vaso do esquecimento.
                Servirá este espaço para apresentar excertos  sobre poetas, dramaturgos, romancistas, contistas, cronistas e de todos aqueles que de uma forma ou outra se dedicaram à arte da escrita, exarando sobre a visão do(s) mundo(s).

P. António Vieira, Sermão de Santo António aos Peixes
               
                António Vieira nasceu em Lisboa, perto da Sé, no dia  6 de Fevereiro de 1608. Aos seis anos partiu com a família para o Brasil, e foi no colégio de Jesuítas, na Baía, que fez os seus estudos, revelando, desde cedo, a sua superior inteligência. Em 1623, entrou na Companhia de Jesus e inicia uma carreira invulgar. O pregador de prestígio, o missionário de vocação, o diplomata de longa carreira e o visionário do V Império, são os tópicos que se podem desenvolver do “Imperador da Língua Portuguesa” (Fernando Pessoa) que morreu na Baía, em 1697, com 89 anos.


                “Mas já que estamos nas covas do mar, antes que saiamos delas, temos lá o irmão polvo, contra o qual têm as suas queixas, e grandes, não menos que S. Basílio e Santo Ambrósio. O polvo com aquele seu capelo na cabeça, parece um monge; com aqueles seus raios estendidos, parece uma estrela; com aquele não ter osso nem espinha, parece a mesma brandura, a mesma mansidão. E debaixo desta aparência tão modesta, ou desta hipocrisia tão santa, testemunham constantemente os dois grandes Doutores da Igreja latina e grega, que o dito polvo é o maior traidor do mar. Consiste esta traição do polvo primeiramente em se vestir ou pintar das mesmas cores de todas aquelas cores  a que está pegado. As cores, que no camaleão são gala, no polvo são malícia; as figuras, que em Proteu são fábula, no polvo são verdade e artifício. Se está nos limos, faz-se verde; se está na areia, faz-se branco; se está no lodo, faz-se pardo; e se está em alguma pedra, como mais ordinariamente costuma estar, faz-se da cor da mesma pedra. E daqui que sucede? Sucede que o outro peixe, inocente da traição, vai passando desacautelado, e o salteador, que está de emboscada dentro do seu próprio engano, lança-lhe os braços de repente, e fá-lo prisioneiro. Fizera mais Judas? Não fizera mais; porque nem fez tanto. Judas abraçou a Cristo, mas outros o prenderam; o polvo é o que abraça e mais o que prende. Judas com os braços fez o sinal, e o polvo dos próprios braços faz as cordas. Judas é verdade que foi traidor, mas com lanternas diante; traçou a traição às escuras, mas executou-a muito às claras. O polvo, escurecendo-se a si, tira a vista aos outros, e a primeira traição e roubo que faz, é à luz, para que não distinga as cores. Vê, peixe aleivoso e vil, qual é a tua maldade, pois Judas em tua comparação já é menos traidor!”
                                                                                                              Sermão de Santo António aos Peixes


Por Santa Marta de Portuzelo

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

SALVANDO-SE DO ESQUECIMENTO.... D. Francisco Manuel de Melo

  
                Referência aos vultos literários e outros, da nossa terra e vizinhos, de aquém e além, merecedores de memória, que se imortalizaram pelo legado artístico e, assim,  libertando-se da lei da morte não caíram no vaso do esquecimento.
                Servirá este espaço para apresentar excertos  sobre poetas, dramaturgos, romancistas, contistas, cronistas e de todos aqueles que de uma forma ou outra se dedicaram à arte da escrita, exarando sobre a visão do(s) mundo(s).

Carta de Guia de Casados de D. Francisco Manuel de Melo
                 D. Francisco Manuel de Melo, com o P. António Vieira, foi o maior escritor do nosso século XVII. Nasceu em Lisboa e teve uma existência acidentadíssima, passou largos anos no cárcere e depois foi desterrado para o Brasil. Culto e viajado, tinha conhecimento profundo das humanidades.
                Num excerto, retirado da obra em epígrafe, sobre o casamento , faz considerações que hoje consideramos anacrónicas mas que merecem uma olhadela  e são, sem dúvida, máximas e pensamentos admiráveis.
                Declara que no amor deve haver equilíbrio. Para haver paz conjugal é preciso haver harmonia no casal. É necessário terem ambos a mesma educação e a mesma ilustração. Pelo menos que o marido nunca seja menos culto que a mulher.  Vejamos algumas citações retiradas da Carta:

“Os que casam com mulheres maiores no ser, no saber e no ter, estão em grandíssimo perigo”
“...três cartas de casamento no mundo; casamento de Deus, casamento do diabo, casamento da morte. De Deus, o do mancebo com a moça. Do diabo, o da velha com o mancebo. Da morte, o da moça com o velho.
                Ele certo tinha razão, porque os casados moços podem viver com a alegria. As velhas casadas com moços vivem em perpétua discórdia. Os velhos casados com as moças apressam a morte, ora pelas desconfianças, ora pelas demasias”.

                Fica o apontamento, para mais, justifica-se a leitura da obra e perceber-se-á melhor a lógica de outrora sobre temas tão candentes.


Por Santa Marta de Portuzelo

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Salvando-se do esquecimento... Sebastião Pereira da Cunha

SALVANDO-SE DO ESQUECIMENTO

Referência aos vultos literários e outros, da nossa terra e vizinhos, de aquém e além, merecedores de memória, que se imortalizaram pelo legado artístico e, assim, libertando-se da lei da morte não caíram no vaso do esquecimento.
Servirá este espaço para apresentar excertos sobre poetas, dramaturgos, romancistas, contistas, cronistas e de todos aqueles que de uma forma ou outra se dedicaram à arte da escrita, exarando sobre a visão do(s) mundo(s).

Sebastião Pereira da Cunha (1850- 1896)
Poeta e prosador, senhor do castelo de Portuzelo, deixou várias obras como Saio da Malha, Serões de Portuzelo e Cidade Vermelha. Foi um dos últimos poetas românticos, reuniu várias vezes em sua casa, Guerra Junqueiro, António Feijó e outros vates do movimento romântico.

PORTOZELLO*
Do Minho cândida filha
O’ minha aldeia sem par,
Como és linda, prateada
N’uma noite de luar!

Tuas modestas casinhas
Nada, em graça, há que a eguale;
São como pérolas, soltas
Debruçadas sobre um valle.

Ao longe, o vulto massiço
De frondosos pinheiraes,
A roçarem pelas nuvens
Com as cimas colossaes.

O presbyterio, phantasma,
Que recorta o céo azul;
Um vergel cada montanha,
Um jardim cada paul.

Da egreja ao lado se altêa
Um gigantesco cipreste,
Verde columna, sustendo
Toda a abobada celeste.



O rio lá está... de manso,
Com a face a reluzir,
Qual vasto espelho... O’ meu Lima
E’s um sultão a dormir.

Dos altos montes a sombra
Vae-se no rio estampar,
E as capellas, que há por ellas
N’agua estão inda a alvejar

D’aquella encosta na espalda
Branda sussurra uma fonte,
E corta a musgosa relva
P’ra o rozal que está defronte.

Os roxinoes cantam  lânguidos
D’entre o arvoredo gentil;
Nem têem fim aqui seus cantos,
Nem aqui tem fim Abril.

E em cada folha de arbusto,
E em cada estrella dos céos,
E em tudo... na minha aldeia
Soletro o nome de Deus.

 * mantém-se  a ortografia arcaica em todo o poema


Por Santa Marta de Portuzelo